Justiça acusa ‘sensacionalismo’ e suspende júri do caso Ana Beatriz, estuprada e morta aos 12 anos

Foto: Jornal Razão

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) suspendeu o julgamento dos acusados de estuprar e matar a menina Ana Beatriz Schelter, de 12 anos, crime ocorrido em março de 2016, em Rio do Sul. A decisão foi assinada na sexta-feira (3) pelo desembargador Leopoldo Augusto Brüggemann, relator do pedido de desaforamento apresentado pela defesa de um dos réus.

O magistrado atendeu ao pedido de transferência do julgamento para outra comarca, com o objetivo de garantir a imparcialidade dos jurados. A defesa alegou que a ampla divulgação do caso pela imprensa local teria provocado comoção pública e pré-julgamento.

No despacho, Brüggemann destacou que a mídia regional, incluindo veículos como RBA TV, Rádio Sintonia FM e Rádio Mirador, “tem promovido cobertura sensacionalista, com comentários públicos que clamam pela condenação dos autores, em tese, do ilícito, inclusive por parte da assistente de acusação (advogada) e da mãe da vítima”.

O magistrado observou ainda que a divulgação da data do julgamento reacendeu o debate público e poderia comprometer a isenção dos jurados, considerando o porte médio da cidade e a ampla circulação de informações.

Com base no artigo 427 do Código de Processo Penal (CPP), Brüggemann entendeu estarem presentes os “relevantes motivos” que justificam o desaforamento e determinou a suspensão do júri popular, que estava marcado para o dia 29 de outubro de 2025, às 8h30, no Tribunal do Júri da Vara Criminal de Rio do Sul.


A decisão determina que a Vara Criminal de Rio do Sul adote as providências cabíveis e intime as partes — defesa, Ministério Público e assistente de acusação — para manifestação no prazo de dez dias.

Antes da suspensão, o júri havia sido transferido de 22 para 29 de outubro por decisão da juíza Marcela Maria Ladislau de Matos Rizzi, após pedidos das defesas, que alegaram conflito de datas com outras audiências e compromissos judiciais.

O crime ocorreu em março de 2016, quando Ana Beatriz Schelter saiu de casa a pé para ir à Escola Henrique Fontes, no bairro Canta Galo. Câmeras de segurança registraram seus últimos passos.

No dia seguinte, o corpo da menina foi encontrado por um morador dentro de um contêiner na BR-470, no bairro Barra da Itoupava. Os autores tentaram simular um suicídio, colocando uma corda no pescoço da vítima.

Laudos periciais confirmaram que Ana Beatriz foi abusada sexualmente e morta por esganadura. O caso gerou grande repercussão e comoção em Rio do Sul.

“Ela não foi só estuprada. Ela foi torturada, massacrada. As piores coisas da vida foram feitas com ela. A minha irmã foi reconhecer o corpo e a mulher do IML, disse: isso é vida real”, lamentou a mãe em entrevista a jornalista Jéssica Sens, da Rádio Mirador.

De acordo com a advogada Giliani Coelho, assistente de acusação, o Ministério Público denunciou três pessoas pelo crime. Atualmente, apenas um dos réus segue preso no Presídio Regional de Rio do Sul.

“Que a justiça olhe para essa foto aqui. Ela tinha só 12 anos, uma vida todinha pela frente. Será que a polícia não tem filhos? Ele está preso, mas não sei até quando. Eu confio na justiça, mas nós temos medo. Ela merece justiça e eu e meu marido vamos fazer de tudo para que ela tenha essa justiça. Podemos estar com 50, 60 anos. Mas nós vamos lutar, para que ele morra na cadeira”, finalizou a mãe de Ana Beatriz.

O julgamento permanecerá suspenso até nova decisão do Tribunal.

Nota da redação do Jornal Razão

O despacho, que cita nominalmente RBA TV, Rádio Sintonia FM e Rádio Mirador, acusa os veículos de promoverem “comentários públicos que clamam pela condenação dos autores, em tese, do ilícito, inclusive por parte da assistente de acusação e da mãe da vítima”.

Ora, qual sociedade civilizada pode se calar diante da barbárie? Qual jornalista, digno de seu ofício, pode tratar com indiferença o estupro e a morte de uma criança?

O Jornal Razão repudia com veemência a tentativa de transformar o dever de informar em ato de parcialidade. Noticiar um crime hediondo não é sensacionalismo. É compromisso com a verdade e com a justiça social.

A cobertura da imprensa não cria comoção. Ela reflete o que a comunidade sente. O que causa indignação não são as manchetes, mas sim a crueldade dos fatos.

Criminalizar o jornalismo é um caminho perigoso e autoritário. O Jornal Razão se solidariza com todos os colegas de imprensa mencionados e reafirma seu compromisso com a verdade, a liberdade e a memória das vítimas.

Fonte: Jornal Razão