A ausência de pai ou mãe na infância, marcada por promessas não cumpridas e falta de convivência, pode deixar sequelas profundas ao longo da vida. Esse tipo de situação tem nome na Justiça: abandono afetivo. E, desde outubro de 2025, uma lei brasileira passou a permitir que filhos processem responsáveis ausentes e peçam indenização por danos morais.
A legislação reconhece que não basta garantir sustento financeiro. A presença, o cuidado e a participação na vida da criança também são deveres legais. Mesmo pais que pagam pensão podem ser responsabilizados se forem omissos no vínculo afetivo.
A corretora de imóveis Vitória Schroder, de 24 anos, é uma das pessoas que buscaram reparação na Justiça. Ela conta que nunca teve contato com o pai. “Ele me registrou e sumiu. Não tenho lembrança nenhuma”, diz.
Criada pelos avós após perder a mãe ainda na infância, Vitória relata que sentia a ausência principalmente em momentos simbólicos, como datas comemorativas. Já adulta, entrou com ação judicial e conseguiu indenização de R$ 150 mil. O pai recorreu.
Apesar da vitória na Justiça, ela diz que o dinheiro não resolve tudo. “Ajuda, mas não é tudo. Eu queria ter o meu pai”, afirma.
Impacto que segue até a vida adulta
Relatos mostram o impacto dessa ausência desde cedo. Crianças que esperam por visitas que nunca acontecem, que veem colegas acompanhados pelos pais na escola ou em festas, e que crescem tentando entender por que foram deixadas de lado.
Segundo a psicóloga clínica e forense Andréia Calçada, o momento em que a criança percebe essa falta costuma ser marcante. “Ela começa a comparar com outras famílias e se pergunta: ‘por que comigo é diferente?’”, explica.
Em um dos casos, uma mãe decidiu acionar a Justiça após anos vendo o filho sofrer com a ausência do pai. O homem chegou a prometer presentes e visitas, mas nunca cumpriu. A indenização fixada foi de R$ 300 mil.
Antes mesmo da nova lei, decisões judiciais já reconheciam o direito à reparação. Em 2012, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou um caso considerado histórico. No voto, a ministra Nancy Andrighi destacou que, mais do que amor — que não pode ser imposto —, existe uma obrigação legal de cuidado. “Amar é faculdade, cuidar é dever”, afirmou.
A ideia subjacente é a de que o ser humano precisa, além do básico para sua manutenção — alimento, abrigo e saúde — também de outros elementos, normalmente imateriais, igualmente necessários para uma adequada formação: educação, lazer, regras de conduta etc.", diz a ministra em seu voto.
"Não se discute mais a mensuração do intangível, o amor, mas sim a verificação do cumprimento, descumprimento ou parcial cumprimento de uma obrigação legal", continua.
A nova lei consolida esse entendimento. De acordo com especialistas, o abandono afetivo não é caracterizado por conflitos pontuais ou relações difíceis, mas por ausência contínua e prejuízos concretos ao desenvolvimento emocional do filho.
As consequências podem ser duradouras. Entre elas, medo de rejeição, ansiedade e dificuldade em estabelecer relações. Há também impactos na autoestima. “Muitos crescem com a sensação de que precisam ser perfeitos para não serem abandonados novamente”, explica a psicóloga Glícia Brasil.
Especialistas apontam que, além da compensação financeira, o reconhecimento judicial pode ter efeito importante na reconstrução emocional. “É restaurativo da dignidade. A pessoa entende que não foi culpada pelo abandono”, diz Glícia.
A lei também estabelece regras sobre quem pode entrar com a ação. O pedido pode ser feito pelo próprio filho a partir dos 18 anos ou por responsáveis legais. Atualmente, o entendimento predominante é que há prazo até os 21 anos, mas juristas defendem que esse tipo de dano seja considerado imprescritível.
Dados apontam que, em cerca de 90% dos casos, a ausência é paterna. Para especialistas, isso está ligado a fatores culturais e à forma como muitos homens ainda se relacionam com a paternidade após separações.
Mesmo com as marcas deixadas, há quem ressignifique a própria história. Um homem, que preferiu não se identificar e que sofreu abandono materno na infância, após enfrentar doenças e longos períodos de internação, diz que encontrou força para seguir em frente. Hoje, é pai de três filhas.
Se pudesse rever a mãe, afirma que não guardaria rancor. “Eu abraçaria e diria: eu venci”, diz.
Para especialistas, o avanço da lei reflete uma mudança na sociedade. Cada vez mais, cresce a compreensão de que cuidar vai muito além de prover — envolve presença, afeto e construção de memórias. E, quando isso falha, a Justiça pode ser um caminho para reconhecimento e reparação.
Fonte: G1
Foto: Reprodução/TV

0 Comentários