A decisão da OAB de São Paulo de atuar no caso de Deolane Bezerra adiciona um novo elemento a uma investigação que já mistura crime organizado, movimentações milionárias e um dos nomes mais populares das redes sociais brasileiras.
Presa há mais de um mês por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC, a influenciadora e advogada agora vê o foco da discussão se deslocar, ao menos em parte, para outro terreno: o das prerrogativas profissionais da advocacia.
A Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB-SP anunciou que ingressará, em conjunto com o Conselho Federal da Ordem, no pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de Deolane.
O movimento, no entanto, não representa apoio à influenciadora nem questionamento sobre as acusações. A própria entidade faz questão de separar as duas discussões.
Enquanto a investigação analisa supostas conexões financeiras com integrantes da facção criminosa, a Ordem argumenta que o local onde Deolane está presa não atende às garantias previstas para advogados sem condenação definitiva.
O ponto que levou a OAB a agir
A atuação da OAB surgiu após uma vistoria técnica realizada no Complexo Penal de Tupi Paulista, no interior de São Paulo.
De acordo com a entidade, a unidade possui características de estabelecimento prisional comum e não atende aos parâmetros definidos pela jurisprudência para ser considerada uma Sala de Estado-Maior.
Na prática, esse é o principal argumento utilizado pela Ordem para justificar sua entrada no caso.
Deolane recebe cartas na prisão
Em nota, a OAB-SP afirmou que sua participação é “exclusivamente institucional” e limitada à defesa das prerrogativas previstas no Estatuto da Advocacia.
A entidade também destacou que não analisa o mérito das acusações, não discute a legalidade da prisão preventiva e não atua na defesa criminal da influenciadora.
O posicionamento chama atenção porque ocorre em meio a uma crescente pressão pública. Nas redes sociais, parte da opinião pública associa a atuação da Ordem a uma defesa de Deolane. Juridicamente, porém, a discussão envolve uma garantia profissional que alcança qualquer advogado regularmente inscrito na instituição.
O que a investigação aponta contra Deolane
Enquanto a discussão jurídica avança, o inquérito segue concentrado nas movimentações financeiras atribuídas à influenciadora.
Deolane responde por organização criminosa e lavagem de dinheiro em uma ação que investiga a atuação de uma transportadora sediada em Presidente Venceslau, apontada pela polícia como braço financeiro da cúpula do PCC.
Por que o recurso de Deolane foi negado?
Conforme a denúncia, a estrutura teria operado entre 2018 e 2025 para ocultar recursos da facção.
A investigação afirma que o cruzamento de relatórios financeiros, movimentações bancárias e provas apreendidas indicou repasses destinados à influenciadora.
Entre os pontos destacados pelos investigadores estão:
Recebimento de R$ 1.067.505 em depósitos fracionados entre 2018 e 2021;
Operações abaixo de R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”;
Movimentações consideradas incompatíveis com a renda formal declarada;
Aquisição de bens de alto padrão;
Créditos sem origem financeira identificada;
Ausência de registros que justificassem parte dos valores recebidos.
Para os investigadores, a notoriedade pública da influenciadora e suas atividades empresariais teriam funcionado como uma camada de aparente legalidade para circulação dos recursos.
A defesa contesta integralmente essa versão. Em nota, os advogados afirmaram que “o recebimento da denúncia não representa conclusão acerca dos fatos imputados”.
A banca também sustenta que “sua cliente é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita e regularmente declarada e Deolane não possui qualquer vínculo com o crime organizado”.
Como manuscritos do PCC levaram ao nome da influenciadora
A origem da investigação remonta a 2019, quando agentes encontraram bilhetes e manuscritos dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau.Os documentos continham referências à estrutura interna do PCC, contatos de integrantes da organização e menções a possíveis ações contra servidores públicos.
Durante a análise do material, os investigadores identificaram referências a uma “mulher da transportadora”. A informação motivou uma nova frente de investigação para identificar quem seria essa pessoa e qual era a relação da empresa com a facção.
As apurações avançaram e chegaram à transportadora Lado a Lado Transportes, também conhecida como Lopes Lemos Transportes. Conforme os investigadores, a empresa teria sido utilizada para lavar recursos da organização criminosa.
A Operação Lado a Lado aprofundou as suspeitas ao apontar crescimento patrimonial sem lastro econômico compatível e movimentações financeiras consideradas atípicas.
Um dos momentos decisivos ocorreu após a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador financeiro do esquema.
De acordo com a investigação, o aparelho armazenava registros de pagamentos, movimentações patrimoniais e imagens que mostrariam depósitos destinados a contas ligadas a Deolane Bezerra e a Everton de Souza, conhecido como “Player”.
Os investigadores sustentam que parte dos recursos da transportadora seguia para integrantes da cúpula do PCC, familiares de Marcola e operadores financeiros vinculados à organização.
STJ mantém prisão e aguarda decisão do TJ-SP
Paralelamente, a defesa tentou reverter a prisão no Superior Tribunal de Justiça. Por unanimidade, os ministros decidiram manter a custódia e entenderam que o Tribunal de Justiça de São Paulo precisa analisar primeiro o mérito dos argumentos apresentados pelos advogados.
O relator do caso, ministro Ribeiro Dantas, apontou que não identificou ilegalidade capaz de justificar uma intervenção antecipada da Corte Superior.
Apesar disso, o STJ recomendou que o TJ-SP examine os pedidos da defesa com celeridade.
Enquanto o julgamento não ocorre, Deolane enfrenta duas frentes simultâneas: a batalha criminal que investiga sua suposta ligação financeira com o PCC e a discussão jurídica sobre as garantias asseguradas a advogados presos antes de condenação definitiva.
Além da esfera criminal, a própria OAB-SP informou que o caso também tramita no Tribunal de Ética e Disciplina da seccional paulista, responsável por avaliar eventual infração ético-disciplinar e uma possível suspensão preventiva do exercício profissional da advogada.
Fonte: Ofuxico
Foto: Reprodução/ Instagram

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